‘Hey Cabral, where’s Amarildo?’

BY MARIANA TORRES

Versão em português  (English version below)

Ei, Cabral, cadê o Amarildo?

Essa foi a pergunta gritada por dezenas de pessoas nas ruas do Brasil durante alguns meses em 2013.

Amarildo Dias de Souza é um ajudante de pedreiro brasileiro que ficou conhecido nacionalmente por conta de seu desaparecimento, no dia 14 de julho de 2013, após ter sido detido por policiais militares, na Favela da Rocinha, em direção a sede da Unidade de Polícia Pacificadora do bairro, ironia que essa mesma polícia que foi elaborada com os princípios da polícia de proximidade, um conceito que vai além da polícia comunitária e tem sua estratégia fundamentada na parceria entre a população e as instituições da área de Segurança Pública. Atualmente quem está no comando das Unidades de Polícia Pacificadoras é o ex-comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar (conhecida sua pela maneira “efusiva” de atuação).

O desaparecimento de Amarildo tornou-se símbolo de casos de abuso de autoridade e violência policial. Os principais suspeitos do desaparecimento de Amarildo são integrantes da própria Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro que tem como governador o Sr Sérgio Cabral.

Amarildo foi visto pela última vez quando conversava com amigos na favela onde morava no momento em que foi abordado por policiais, encaminhado à uma viatura da polícia e desde então desapareceu. O desaparecimento causou uma indignação nacional, com questionamentos feitos por famosos em rede nacional e uma campanha na internet que recebeu vídeos de pessoas de todo o mundo. A comoção nacional se intensificou porque um mês antes do sumiço de Amarildo o Brasil viveu intensos dias de manifestações populares que levaram às ruas milhões de pessoas que reclamavam por um melhor sistema de saúde, educação pública de qualidade, transportes eficientes, por punição aos políticos corruptos que desviam bilhões dos cofres públicos todos os anos entre outras coisas. Quase 1 ano e meio depois Amarildo ainda não foi encontrado e há fortes suspeitas de que o mesmo foi torturado atrás da cabine da polícia antes de seu desaparecimento.

Claudia Silva Ferreira foi baleada no pescoço e nas costas em meio a uma operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro na manhã do dia 16 de março de 2014, no Morro da Congonha, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Desacordada, a mulher de 38 anos e mãe 3 filhos, conhecida como Cacau, foi colocada no porta-malas da viatura policial supostamente para ser levada ao hospital. Ainda no morro, vizinhos e amigos tentaram evitar que ela fosse levada pelos PMs, que deram tiros para o alto para afastar a multidão e, com o porta-malas aberto, a levaram. Adiante, seu corpo aparentemente sem vida caiu do porta-malas e, preso por um pedaço de roupa, foi arrastado pelo asfalto por pelo menos 250 metros sem que os policiais no carro dessem atenção aos apelos de outros motoristas e pedestres.

Os PMs responsáveis pelo arrastamento de Claudia, foram presos no dia seguinte, mas foram soltos no dia 20 de março, após pedido do promotor Paulo Roberto Cunha que declarou que “Se ela [Claudia] apresentava sinais vitais, há o crime de lesão corporal. Mas, se estava morta [quando colocada na viatura], eles não cometeram nenhum crime”. Os policiais aguardam julgamento em liberdade provisória.

O professor Eduardo Sterzi divulgou em seu Facebook depoimento anônimo de um morador que presenciou a execução de Claudia e de um outro morador que também acabou por morrer. Segundo o marido de Claudia, Alexandre da Silva, a mesma teria sido atingida pela PM que teria ainda plantado na cena do crime 4 armas quando, segundo eles, ela portava apenas um pacote de café e seis reais para comprar alimentos para seus filhos.

O caso trouxe novamente à tona o debate pelo fim da Polícia Militar e sua desmilitarização, como pede o coletivo Rio na Rua: “Após enterrar o corpo de Claudia Ferreira da Silva, moradores do Morro da Congonha, em Madureira, voltaram para a Avenida Edgar Romero para protestar. Cerca de 80 pessoas fecharam as duas pistas da via. Após este, houve mais 2 protestos com queima de ônibus e bloqueio de uma via importante da cidade. Os manifestantes pediam justiça no caso e gritavam palavras de ordem.”

Policiais da 23º Batalhão da Polícia Militar no bairro do Leblon foram acionados no dia 22 de abril de 2014 para uma confusão na Unidade de Polícia Pacificadora do Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul do Rio. Segundo a Coordenadoria de Polícia Pacificadora, moradores fizeram um protesto após o corpo do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, de 26 anos, conhecido como DG, do programa de tv “Esquenta”, ser encontrado na comunidade. Em nota a Polícia Civil informou que a análise do Instituto Médico Legal (IML) mostrou que as escoriações eram “compatíveis com morte ocasionada por queda”. A mãe de DG contestou a versão: “Ele não caiu, ele estava machucado. Tinha marcas de chutes nas costas e nas costelas”. Uma segunda declaração do IML aponta que o dançarino morreu devido a uma perfuração no pulmão, porém o documento não detalha o que teria provocado o ferimento. Cópia do documento foi entregue à família e divulgada nas redes sociais pelo advogado Rodrigo Mondego, da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

De acordo o comando da unidade, houve um tiroteio durante ação da PM na noite do dia 21 na comunidade. O corpo do dançarino foi encontrado numa creche, no fim da manhã do dia seguinte. Segundo amigos, DG, que também era mototaxista na comunidade, teria sido confundido com um traficante. Ao fugir, se escondeu em uma creche e lá teria sido espancado até a morte. A UPP não confirma a informação.

Helicópteros sobrevoavam a região por volta das 18h30. Tiros e muito quebra-quebra foram relatados por moradores da região, assustados. O Túnel Sá Freire Alvim foi fechado por volta das 18h10. A Avenida Nossa Senhora de Copacabana também foi interditada às 18h30, na altura da Rua Sá Ferreira. Imagens aéreas mostram barricadas montadas com fogo. O trânsito ficou muito ruim na região. O acesso da estação General Osório na Rua Sá Ferreira também foi fechado.

O problema é que lá (nas favelas) ainda impera a lei do silêncio. As pessoas acabam ficando com medo de dar qualquer informação — disse o delegado.

“[Policiais Militares] bateram nele e quando viram que era um menino da ‘Globo’ tentaram esconder o corpo. Meu filho seria mais um Amarildo se não tivessem visto o corpo dele”, relatou a mãe de Douglas. A família do jovem acredita que ele realmente tenha sido espancado por policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

Protesto termina em outra morte.

Um protesto contra a morte de DG acabou em mais violência na noite do dia 22. Um homem que aparentava ter 30 anos morreu durante o ato na favela Pavão-Pavãozinho atingido por um tiro na cabeça. Além disso, um menino de 12 anos foi baleado quando descia a ladeira Saint Roman, na esquina com a Rua Sá Ferreira. Segundo relatos de testemunhas, ele estava sozinho e com as mãos para o alto.

No começo da noite, os manifestantes fizeram barricadas de fogo e pelo menos um carro foi incendiado. Com isso, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana precisou ser interditada. O comércio local fechou as portas.

A PM utilizou balas de borracha e bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo na tentativa de dispersar os manifestantes, que responderam com pedras e paus. Testemunhas relataram terem ouvido disparos de armas de fogo por parte dos policiais militares. Estes são só alguns exemplos de como funciona a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, que tem por função não só “proteger a sociedade”, como também exterminar a população negra e pobre do estado.

Voltando ao final do século passado um massacre ocorrido em 23 de julho de 1993 resultou na morte de 8 crianças e adolescentes moradores de rua. Quatro policiais militares chegaram a ser presos, mas cumpriram apenas parte da pena. As mortes ocorreram durante uma ação policial quando cerca de 70 crianças e adolescentes que dormiam nas proximidades de uma igreja no centro da cidade foram alvejadas por policiais civis e militares.

Para lembrar o episódio, no dia 19 de setembro de 2013, centenas de pessoas participaram de uma missa na igreja e fizeram uma passeata pela Avenida Rio Branca até a Cinelândia. “Esquecer é uma forma de permitir que aconteça novamente. Lembrar é reagir”, disse Patrícia de Oliveira, irmã de Wagner dos Santos, um dos sobreviventes da chacina. Apesar da grande repercussão da Chacina da Candelária até hoje não se sabe a motivação do crime e os policiais envolvidos no atentado não foram condenados.

“A polícia age assim porque muitos deles sabem que poderão cometer crimes e não serão punidos”, conclui Patrícia, que também faz parte da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. Até maio de 2013, por exemplo, foram registrados 101 homicídios decorrentes de intervenção policial no Rio de Janeiro, segundo dados do Instituto de Segurança Pública do estado, mas cabe ressaltar que esse número contabiliza somente os casos que foram registrados oficialmente, mas esse número se multiplica muitas vezes se considerarmos todas as vidas que são tiradas nas favelas, no subúrbio, na periferia. São milhares de vidas, histórias, planos interrompidos bruscamente por algumas balas perdidas e outras muito bem endereçadas a logradouros pobres e pretos.

Mas esse não é só um quadro só do Rio de Janeiro, mas sim no país inteiro. No dia 05/01/2015 o Jornal Folha de São Paulo divulgou que no nordeste do Brasil ser jovem e negro é correr a mais 2,5 vezes o risco de morte quando comparados a chances de um jovem branco. Segundo José Luiz Ratton, sociólogo da Universidade Federal da Paraíba, é impossível pensar o desenvolvimento país com taxas de homicídio como estas. Isso é uma tragédia e uma questão civilizatória.

Grupos por todo o país pedem o fim da Polícia Militar. Vozes nas ruas gritam que “a polícia brasileira mata pobres todos os dias”. Quantos outros casos de abuso de autoridade, torturas e assassinatos ocorrem todos os dias e não são divulgados pela mídia. Quantos Amarildos, Claudias e Douglas ainda morrerão? O crime e a violência policial matam aproximadamente 30 mil jovens negros e pobres por ano no Brasil, este mesmo Brasil que possui a 7ª maior economia do mundo, que está sendo o centro das atenções devido aos grandes eventos esportivos, que é o país mais importante da América do Sul. Enquanto isso os jovens negros e pobres continuam presos a estereótipos, preconceitos e marginalização nesse país marcado por uma desigualdade existente desde sempre.

 

 

 

English version

 

‘Hey Cabral, where’s Amarildo?’

This was the question shouted by thousands of people in the streets of Brazil throughout several months of 2013. Amarildo Dias de Souza became known at a national level due to his disappearance on 14th July 2013, after having been detained by the military police in Rocinha, at the headquarters of the unit pacification police district. Ironically, precisely this police force had initially been drafted on the principles of community policing, its concept based on a partnership between the population and the institutions of public safety. Currently in charge of maintaining ‘peace’ in the communities and leading the police units is the former commander of the Special Operations Batallion (BOPE) of the military police, which is known for its aggressive form of policing.

The disappearance of Amarildo has become a symbol of abuse of authority and police violence. The main suspects in his disappearance are members of the military police of the state of Rio de Janeiro, whose governor is Señor Sergio Cabral. Amarildo was last seen talking to friends in his neighbourhood, when he was approached by the police and taken away in a car. The disappearance caused a national outcry, with celebrities appearing on national television and online campaigns receiving videos of support from people all over the world. Just a month before Amarildo’s disappearance, Brazil had experienced intense days of demonstrations that saw millions of people in the streets, calling for a better healthcare system, public education of higher quality, efficient transport networks and the punishment of corrupt politicians, who divert billions of public funds every year. Almost a year after Amarildo’s disappearance he still hasn’t been found and there are strong suspicions that he was tortured during the process of his disappearance.

Claudia Silva Ferreira was shot in the neck and back during a military police operation on the morning of 16th March 2014, in Morro de Cangonha, in the north of the city of Rio de Janeiro. Unconscious, the 38-year old mother of four was taken away in a police car, with the police claiming that they would taker her to hospital. Although neighbours and friends in the favela tried to prevent her being taken away by the police, who reportedly fired shots in the air to ward off the crowds, they took her, with the trunk open. Later, her apparently lifeless body fell out of the trunk. Attached by a piece of clothing, it was dragged along the road for at least 250 metres, without the police paying attention to the shouts of other drivers and pedestrians. The members of the military police responsible for Claudia’s arrest were detained the next day, but allowed to leave on 20th March, following the request by a prosecutor, who claimed that ‘if she (Claudia) had vital signs, it it isn’t a crime of bodily harm. But if she was dead (when placed in the car), they have not committed a crime.’ These members of the police are on bail awaiting trial.

The case lead to a renewed debate about order of the military police and its demilitarisation, a call that has been made repeatedly by the organisation ‘River Street’. After having buried Claudia Ferreira da Silva’s body, residents of the Favela Congonha returned to the street to protest and demand justice. Around 100 people closed the two lanes of the road. This was followed by two more protests, involving the burning of buses and the blockade of a main ‘artery’ of the city.

Police of the 23º Batallion of the Military Police, in the neighbourhood of Leblon, were called to the Favela Pavão-Pavãozinho in the south of Rio de Janeiro on 22nd April 2014. According to the coordinator, residents had been staging a protest after the body of 26-year-old dancer Rafael Douglas da Silva Pereira, known as DG on the ‘Heats’ programme on TV, was found in the community. In a statement, the civil police cited the analysis of the Medical Legal Institute (IML), claiming that the bruising was ‘compatible with death caused by falling’. Douglas’s mother disputed this version: ‘He didn’t fall, he was beaten and had marks on his back and ribs.’ A second statement by the IML signalled that the dancer died of a perforated lung, but the document didn’t detail what could have caused this injury. A copy of this document was handed over to the family and then published in social networks by the lawyer Rodrigo Mondego, of the Human Rights Committee of the Association of Lawyers of Brazil.

The body of the dancer was found in a nursery the following morning. According to a friend of Douglas, a taxi driver in the community, Douglas had been confused for a drug trafficker. He fled and hid in the nursery, where he was later beaten to death. This hasn’t been confirmed by the UPP (Pacifying Police Unit).

Helicopters flew over the area at around 18:30. Shooting and riots were reported by frightened local residents. The tunnel of Sa Freire Alvim had been shut at 18:00, Avenida Nossa Senhora de Copacabana at 18:30. Aerial images showed barricades mounted with fire. Traffic was terrible in the sourrounding areas. ‘The problem is that the law of silence still rules there (in the poor neighbourhoods). People are scared to give any information.’ said a local delegate.

’(The military police) beat him and when they saw that he was a child of Globo (Rede Globo, the largest TV network), they tried to hide the body. My son would be another Amarildo if they had not seen the body’ stated Douglas’s mother. The boy’s family believes that he was killed by police officers of the UPP.

Violence by the police against its own population is not a new phenomenon in Brazil. At the end of the last century, a massacre took place in Chandeleria on 23rd July 1993, in which eight children and homeless adolescents lost their lives. Four policemen were eventually arrested, but have only completed a small part of their trials. The deaths occured during a police operation involving almost 70 children and young adolescents, who were sleeping near a church in the centre of Rio. In an act of remembrance of these events, around 100 people attended a mass at the church and then marched together on 19th September 2013. ‘To forget is a way of letting it happen again.’ said Patricia de Olveira, the sister of one the survivors of the massacre. Despite the grave consecuences of the events of Chandeleria, the motivation behind the crimes has never become known, and the police agents involved are yet to be condemned. Today one of the survivors is living outside of Brazil under government protection.

These are just some examples of how the military police of Rio de Janeiro, which doesn’t exist just to ‘protect society’, continues to mistreat the poor black community of the country.

‘The police does this because many of them know that they can commit crimes without being punished’ concludes Patricia, who formed part of the Network of Communities and Movements against Violence. By May 2014, for example, 101 homicides had taken place as a result of police action in Rio de Janeiro. It has to be taken into account that this is only the number of cases that have been officially registered, becoming multiplied many times if we take into account all of the lives that are taken by the police in the poor neighbourhoods, the suburbs, the outskirts. Thousands of lives, stories and plans, brusquely terminated by a few shots, some stray, others directly aimed at the homes of the poor and blacks.

This is not just a problem of Rio de Janeiro, but happens in the entire country. On 1st May 2015, the Folha (Newspaper ‘Folha de Sao Paolo’) reported that young black people had a risk of death 2.5 times that of their young white peers. According to José Luiz Ratton, sociologist of the Federal University of Paraíba, it’s impossible to think about the development of the country with such a rate of homicides. This is a tragedy, and a question of civilization.

Groups throughout the country calling for the end of the Military Police. Voices in the streets shouting that ‘the brazilian police kills poor people every day’. Just like many other cases of abuse of authority, torture and murder happen every day and are failed to be reported by the media. How many Amarildos, Claudias and Douglas’s will continue to die? Police crime and violence kill approximately 30,000 black and poor young people per year in Brazil, the same Brazil which has the seventh strongest economy in the world, which finds itself at the centre of attention due to the the recent sporting spectacles, which is the most important country of South America. Meanwhile, these young people continue to be stereotyped, marginalized and killed in this country that is marked by historical inequality which has been existent for as long as we can remember.

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